arte de esquecer

"depois de tudo que nos fez a vida, meu deus/ essa teimosia de reviver/ com a mesma humildade agradecida / que sente a relva após a chuva./ agora,/ as lágrimas tornaram mais límpidos/ os teus olhos/ vês?/ não, não olhes a vida/ olha o mundo/ no mundo é sempre agora." Mário Quintana

dezembro 21, 2006

eu preciso seguir em frente e acreditar que todas as coisas são importantes...

dezembro 19, 2006

Incômodo

-Não tenho muito tempo. É sangue de verdade. Por favor... não me deixe aqui. Eu não sinto a perna. Eu não sinto raiva ou amor. Eu só quero viver. Eu não agüento um pouco mais. Prometo ser um bom homem de agora em diante... (gritava Edinardo, olhando quase para o céu).

-Deve estar agonizando. E, por isso, tagarela ao vento, sozinho.
-É bom estar vivo...

-Covardes. Vermes. Parasitas. Não se deleitem com a minha agonia. Eu não permito. Não têm uma vida e precisam roubar o meu sangue. Organizam os livros na estante para afastar a desordem dentro de seus corações. E não adianta. Jamais serão felizes... (continuou Edinardo, baixando a cabeça até a linha do horizonte).

A sirene de uma ambulância interrompeu a exaltação dos presentes.

-Abram caminho. Afastem-se.

E o homem de branco jogou Edinardo dentro do furgão, desaparecendo na poeira das ruas molhadas de sangue.

-Porque nos fascinamos com a tragédia e o desastre?
-Isso nos faz acreditar que somos mais felizes, filho.
-E como é a morte ?
-Eu não sei, mas é muito moço para pensar estas coisas. Vai brincar um pouco...

dezembro 17, 2006

Dorivaldo

Ainda estou me acostumando com a idéia. Olhando para os meus problemas, como se fossem um espelho. Descruzo os braços e ando de um lado para o outro entre os corredores estreitos de minha vida, vazia. Eu lamento por tudo o que aconteceu, mas não adianta, porque o mundo ainda é o mesmo; e uma laranja não pode substituir o lugar do sol. A vida é mesmo uma ironia... descobri não controlar os meus dias. Depois de tanto tempo, esta é a sombra de uma idéia lamentável ganhando vida dentro de mim.

Dorivaldo enxugou as lágrimas escorrendo em seu rosto. Naquele dia, o entardecer foi vermelho e triste para o seu coração. Era o fim de mais um ano de erros e falsas emoções. Engraçado, estes dias, antigamente, eram mais especiais. Dia após dia, os movimentos e as cores carecem de um pouco de sentido.

Dorivaldo sentiu o desejo de nunca mais sair de dentro daquele quarto, tão seguro e quente, feito o ninho de uma águia. Era bem difícil para Dorivaldo acordar todos os dias e ter que escovar os dentes e pentear os cabelos.

Dorivaldo apenas queria não sentir estas coisas. Estes medos. Apenas queria no final de algum dia doce contar uma estória feliz ao seu filho e, depois, ao seu neto. As atuais circunstâncias não revelam alguma esperança. Além do mais, Dorivaldo não é uma águia. Não pode voar pelas montanhas.

A proteção é irmã da desordem. Dorivaldo pensou ser ingrato, tão forte e certas vezes tão fraco. Viver é morrer. Dorivaldo desejou somente um dia viver, um dia para nunca mais esquecer. E atormentado, pensou estar louco. Não, ainda não.

Vai ficar tudo bem, ao menos por enquanto. Dorivaldo quer apenas fazer as coisas darem certo e zelar pelo bem dos corações leais. E que um dia, alguém sinta a falta de um menino chamado Dorivaldo.

dezembro 15, 2006

sem título

no futuro
em um dia triste
serei lembrado
por tudo que não existe

durante a vida
em algum momento
serei a água e o vento
o sol e o sereno

e durante a morte
quando rolar o teu pranto
serei o preto
e o branco.