arte de esquecer

"depois de tudo que nos fez a vida, meu deus/ essa teimosia de reviver/ com a mesma humildade agradecida / que sente a relva após a chuva./ agora,/ as lágrimas tornaram mais límpidos/ os teus olhos/ vês?/ não, não olhes a vida/ olha o mundo/ no mundo é sempre agora." Mário Quintana

dezembro 19, 2006

Incômodo

-Não tenho muito tempo. É sangue de verdade. Por favor... não me deixe aqui. Eu não sinto a perna. Eu não sinto raiva ou amor. Eu só quero viver. Eu não agüento um pouco mais. Prometo ser um bom homem de agora em diante... (gritava Edinardo, olhando quase para o céu).

-Deve estar agonizando. E, por isso, tagarela ao vento, sozinho.
-É bom estar vivo...

-Covardes. Vermes. Parasitas. Não se deleitem com a minha agonia. Eu não permito. Não têm uma vida e precisam roubar o meu sangue. Organizam os livros na estante para afastar a desordem dentro de seus corações. E não adianta. Jamais serão felizes... (continuou Edinardo, baixando a cabeça até a linha do horizonte).

A sirene de uma ambulância interrompeu a exaltação dos presentes.

-Abram caminho. Afastem-se.

E o homem de branco jogou Edinardo dentro do furgão, desaparecendo na poeira das ruas molhadas de sangue.

-Porque nos fascinamos com a tragédia e o desastre?
-Isso nos faz acreditar que somos mais felizes, filho.
-E como é a morte ?
-Eu não sei, mas é muito moço para pensar estas coisas. Vai brincar um pouco...

1 Comments:

At 1/1/07 2:20 PM, Blogger Mateus said...

"senão chega a morte ou coisa parecida e nos arrasta moço sem termos visto a vida"

 

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